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Opinião.2012.05

A música na fé

    Embora tivesse nascido em um lar ‘tenrikyano’, fui ter alguma consciência religiosa somente por volta dos meus dez, doze anos. Meu pai era muito dedicado à Tenrikyo, mas, como ele praticamente só falava o japonês, era muito difícil entender o que ele queria nos transmitir. Entendemos pouco com suas palavras, mas aprendemos muito com as suas atitudes. Era uma pessoa que não ficava apenas a falar, mas, principalmente, sabia praticar. Além disso, tinha uma mente aberta e permitiu que, na infância, eu e minhas irmãs frequentássemos uma escola dominical, que hoje se tornou uma igreja evangélica. Achava que não haveria inconveniente em conhecermos outra doutrina, e como tinha convicção da profundidade e da verdade do nosso ensinamento, creio que ele sabia que, no momento certo, saberíamos discernir sobre qual caminho deveríamos seguir.

Nessa escolinha, líamos a bíblia, decoramos e aprendemos muitos cânticos e, sobretudo, ganhávamos muitos presentinhos.

Em uma das orações, entoávamos uma música suave, e, cada uma de nós, individualmente, deveria pedir perdão a Deus pelos pecados praticados e solicitar a Ele, Deus, que se introduzisse em nossos corações. Envolvidas pela emoção do momento, pelo clima que se instalava com a beleza da música, era como estar sentindo a própria presença divina. Uma vez terminada a oração, sentíamo-nos mais purificadas, mas não me lembro por quanto tempo essa emoção perdurava.

Desde então, tenho pensado na grande força que é a música, para nos fazer sentir uma emoção, para criar um clima, para fazer emergir os mais nobres e belos sentimentos que temos guardados em nossos corações. A música nos transporta para outros mundos, nos faz sentir a beleza e a poesia da vida, da natureza, do amor, da saudade, enfim, até nos faz sentir seres humanos melhores.

Hoje, compreendo que aquela música da escolinha dominical nos fazia sentir a proximidade de um ser divino, num processo de autossugestão. E embora sinta que, em parte, seja válido utilizarmos dessa técnica, vejo que esses recursos são explorados à exaustão, nos cultos de muitas religiões.

Na Tenrikyo, tudo é feito quando estamos em pleno exercício de nossa consciência. A compreensão do ensinamento, a dedicação à igreja, o hinokishin, as oferendas que fazemos. Existe pouco apelo emocional, e muito mais o apelo da razão. A proximidade divina, nós a sentimos quando, em nossas orações diárias e nos serviços mensais, mentalizamos as palavras entoadas. Ou quando, diante dos fatos da vida, paramos para refletir sobre as nossas atitudes e percebemos o quão distantes estamos do caminho que nos leva a Oyassama.

Entender e se aprofundar na fé através do pensamento racional, creio ser absolutamente correto, mas, penso que o homem é um ser que se deixa levar também pelas emoções. E que essas emoções o fazem caminhar e até mesmo mudar de rumo. Seria sentir a fé com o coração e não somente com a inteligência.

Há músicas tenrikyanas belíssimas. ”Koukai” é uma delas. Ver e ouvir o coral cantar esta música na festa dos 60 anos do Dendotyo, foi uma experiência que me levou às lágrimas. Sinto que devemos valorizar mais e aprender melhor as nossas músicas. Porque elas nos fazem sentir o lado sublime da fé.  E, tal como em “Koukai”, se um dia virmos o nosso barquinho à deriva na imensidão do oceano, e sentirmos tristeza e solidão, tenhamos a certeza de que, se prosseguirmos dedicando confiantes, Oyassama fará soprar o vento que fará o barquinho se mover e nos levará à salvação da Vida Plena de Alegria.

*é membro da Comissão de Tradução da Sede Missionária e yoboku da Igreja Campinas