645 2025.mar
doutrina ii
De inestimável valor
Carlos Yoshitaka Negoro
Nos últimos anos, a ascensão da Inteligência Artificial (IA) tem transformado profundamente a sociedade, influenciando desde a comunicação até o modo como tomamos decisões. No entanto, surge um questionamento inevitável: qual o impacto da IA na fé em Deus? Em meio a algoritmos sofisticados e máquinas que ‘aprendem’, como se mantém a relação entre o ser humano e o divino?
A Doutrina de Tenrikyo ensina que Deus-Parens, o Deus original (criador) e Deus verdadeiro (protetor da humanidade), nos concedeu este mundo como um lugar de alegria e harmonia. Tudo que existe, inclusive os avanços tecnológicos, faz parte do cenário que nos foi dado para aprimorar a vida e aprofundar nossa compreensão sobre a verdade divina. Assim, a IA pode ser vista como uma ferramenta concedida ao ser humano, e seu uso deve estar alinhado ao propósito de viver com gratidão, empatia e senso de responsabilidade.
A IA, por sua capacidade de processar grandes quantidades de informações e oferecer soluções rápidas, muitas vezes assume o papel de facilitador da vida cotidiana. No entanto, a fé não pode ser reduzida a um cálculo ou a um sistema lógico. A relação entre o ser humano e Deus-Parens é baseada em sentimentos, experiências e crescimento espiritual, aspectos profundos que uma máquina jamais poderá compreender plenamente.
Por outro lado, a era digital também abre portas para reflexões importantes. A IA nos ajuda a perceber a complexidade da criação e, paradoxalmente, reforça a noção de que há algo além do conhecimento humano. Mesmo com toda a evolução da tecnologia, ainda enfrentamos questões fundamentais: Qual é o propósito da vida? Como cultivar a verdadeira alegria? Como transformar o sofrimento em aprendizado?
Nesse sentido, a IA pode ser uma aliada na disseminação dos ensinamentos da Tenrikyo. Ferramentas tecnológicas permitem o acesso mais amplo aos escritos sagrados, fortalecem a comunicação entre fiéis ao redor do mundo e auxiliam na preservação da história e da cultura religiosa. Além disso, o uso da IA pode facilitar o aprendizado sobre a fé, tornando o conhecimento mais acessível para novas gerações que já nascem imersas no mundo digital. No entanto, a fé não pode ser delegada à IA. A prática do Hinokishin, o cultivo da gratidão e a busca pelo Modelo de Vida são aspectos insubstituíveis da jornada espiritual.
Se a tecnologia avança mas o coração humano se distancia da compaixão, do altruísmo e do propósito divino, corremos o risco de perder aquilo que realmente nos define. O verdadeiro desafio, portanto, não é a presença da IA em nossas vidas, mas sim, como a utilizamos. Assim como qualquer inovação, sua utilidade dependerá do espírito com que a empregamos: se para reforçar o egoísmo e a separação ou para fortalecer os laços de fraternidade e compreensão mútua.
Deus-Parens nos concedeu a capacidade de pensar e criar, mas também nos orienta a usar tais habilidades para contribuir com a harmonia do mundo. A inteligência artificial pode facilitar tarefas e expandir horizontes, mas cabe a cada um de nós manter vivo o espírito de sinceridade e gratidão, para que possamos avançar não apenas tecnologicamente, mas também espiritualmente, em direção ao mundo de vida plena e alegria mútua.
Mais do que nunca, é essencial lembrar que o verdadeiro progresso não está apenas no desenvolvimento das máquinas, mas na evolução do espírito humano. Podemos utilizar a IA para aprimorar o conhecimento, mas somente por meio da reflexão sincera, do amor ao próximo e da prática da fé seremos capazes de criar um futuro verdadeiramente harmonioso. O avanço tecnológico é inevitável, mas que ele venha sempre acompanhado do compromisso com a construção de um mundo melhor, conforme a intenção de Deus-Parens. (Carlos Yoshitaka Negoro)