Masaharu Matake
Gostaria de expressar meu sincero apreço a todos que, no dia a dia, têm se dedicado com empenho às atividades decenárias em suas respectivas posições. Como fui encarregado de dirigir a palestra de hoje, peço, por favor, a sua atenção por alguns instantes.
Bom dia a todos, mais uma vez. Sou Masaharu Matake, atual condutor da Igreja Brasil Takaumi.
Indo direto ao ponto, será que os senhores já pararam para pensar que tipo de expressão têm no rosto durante o dia a dia?
Será que não estamos, sem perceber, passando nossos dias com o semblante franzido, sobrancelhas erguidas e os cantos da boca voltados para baixo, como nesta expressão? (imagem apresentada no monitor)
Dizem que, com essa expressão, é como se se formasse um “X” no rosto, e então as coisas acabam não dando certo, não importa o quanto a gente tente.
Por outro lado, quando estamos com um sorriso como este (foto 2), os cantos dos olhos se suavizam, os lábios se elevam e se forma um círculo no rosto.
Quando estamos com esse tipo de expressão, as coisas tendem a fluir de forma positiva, e muitos acontecimentos bons acabam surgindo em nosso caminho.
Já ouvi esse tipo de relato antes.
Portanto, ao menos durante esta palestra, peço que tentem manter esse sorriso que forma um círculo no rosto, e que, ao ouvir minha fala, possam concordar balançando a cabeça positivamente – isso faz com que eu, que estou aqui falando, me sinta muito melhor. Conto com a colaboração de todos vocês!
Já que temos a televisão à disposição, pensei em aproveitar para usá-la desse jeito, aproveitando também para mostrar algumas fotos e, de quebra, me gabar um pouco das minhas adoráveis crianças.
Além disso, perguntei ao primaz quanto tempo, no mínimo, teria que durar a palestra da cerimônia, e ele respondeu que o máximo seria cerca de 20 minutos. Assim, como não vou poder terminar muito rápido, para ganhar algum tempo, gostaria de compartilhar, antes de entrar no conteúdo principal, uma história que me marcou muito quando cheguei ao Brasil, mas que, por falta de habilidade literária, não consegui incluir no texto principal.
Naquela época, quando completei um ano no Brasil, tive a oportunidade de fazer meu primeiro regresso a Jiba. Foi então que uma senhora, ao saber que eu iria regressar a Jiba, me disse: “Parabéns”.
Regresso a Jiba, igual a parabéns... Mesmo tendo morado cerca de cinco anos em Tenri, eu realmente não conseguia entender isso.
Ultimamente, ouço pouco as pessoas dizerem “parabéns” para quem vai fazer o regresso a Jiba, ou talvez só aquela senhora usasse essa expressão. Mas, agora, consigo entender o significado daquele “parabéns” — a gratidão de poder fazer o regresso a Jiba. Por isso, quero aproveitar para dizer muitas vezes essa palavra a todos que irão fazer o regresso a Jiba neste 140º ano do ocultamento de Oyassama.
Bem, a partir daqui começa o conteúdo principal.
Como já fazia 11 anos desde minha última palestra da cerimônia, sinto-me bastante nervoso. Ao refletir sobre o que mudou em mim nesses 11 anos, percebi que a maior transformação foi ter recebido a dádiva de quatro filhos. Por isso, hoje escolhi como tema da minha palestra a relação entre pais e filhos.
Neste mês, acredito que muitos jovens estejam participando da cerimônia. E, então, deixo uma pergunta: vocês têm se dedicado aos pais como bons filhos ou filhas? Aproveitem para praticar ao máximo a dedicação filial aos pais enquanto é possível!
Meu pai retornou em dezembro de 2019, acometido por um tipo de câncer chamado mieloma múltiplo. No início, o médico lhe deu apenas seis meses de vida, mas ele viveu mais três anos e meio, sem sentir fortes dores. Até uma semana antes de retornar, continuava com o hábito de fumar, sem minha mãe saber. Ele sempre foi grato por tudo e se despediu de forma tranquila.
Desde os 15 anos, quando fui estudar no ensino médio em Jiba, até hoje, aos 39, não vivi mais junto de meus pais. Portanto, ao decidir vir para o Brasil, já estava preparado para o fato de não conseguir estar presente no momento da despedida deles. No entanto, por coincidência, consegui me despedir de meu pai bem de perto, pois seu retornamento ocorreu justamente quando eu estava em Jiba, tendo apenas que alterar um pouco o voo de volta.
Antes de se tornar condutor da igreja, meu pai trabalhava como carpinteiro. Quando criança, ele me parecia muito grande e tinha um temperamento explosivo, o que o tornava alguém temido para mim. Mesmo assim, as últimas palavras que meu pai me dirigiu foram: “Aproveite e se divirta muito!”.
Apesar de meu pai ter sido alguém assustador para mim na infância, observando de forma mais madura, vejo que ele não gostava de conversas sérias. Metade das coisas que ele falava eram brincadeiras e a outra metade eram comentários despreocupados. Ainda, quando era hora de se divertir, divertia-se ainda mais do que as crianças. Mesmo pouco antes de retornar, ainda fazia seus pedidos inusitados: pediu para que, em vez do traje religioso “kyoufuku”, colocassem nele um macacão de brincar e que, ao invés de urna de cinzas tradicional, usássemos uma panela de barro de feijoada que trouxemos do Brasil.
Agora, no papel de pai de quatro filhos, penso muito sobre como devo transmitir o ensinamento do Caminho para eles. Buscando nas minhas lembranças, percebo que, na verdade, quase não tive momentos em que meu pai me ensinou diretamente sobre a doutrina ou falava sobre Deus.
Em vez disso, o que ficou marcado foi a imagem do meu pai enchendo o porta-malas do carro com ferramentas para participar dos Hinokishin nas igrejas superiores e irmãs, e a lembrança dele trabalhando alegremente nesses Hinokishin, sempre sorrindo e se divertindo.
Quando tive essa lembrança, percebi que não é necessário ensinar, e sim, basta mostrar com o próprio exemplo. Mas, mais do que simplesmente mostrar, entendi que o mais importante é viver a fé de forma verdadeiramente alegre, sem sentir que é uma obrigação, e deixar que isso transpareça nas ações do dia a dia.
Desviando um pouco do assunto, recebi a permissão de condutor de igreja quando tinha 24 anos. Naquela época, sentia ansiedade e pressão, pensando: “Será que uma pessoa tão jovem como eu conseguiria ser condutor de uma igreja composta apenas por fiéis mais velhos do que meus próprios pais?”. Nossa, mesmo eu já tive momentos em que senti esse tipo de pressão...
Foi então que um amigo me contou sobre uma sessão de perguntas e respostas que teve com o Shimbashira anterior na partida para um centro de missionamento no Japão.
Esse amigo perguntou: “Quando conseguimos converter fiéis em um centro de missionamento, acredito que nos tornamos pais espirituais dessas pessoas. Gostaria de saber quais são as atitudes mais importantes que devemos ter ao assumir esse papel de pai espiritual.”
Então, o Shimbashira anterior respondeu, em um tom um pouco severo: “Por favor, não se confundam. Os verdadeiros pais são apenas Deus-Parens e Oyassama; nós, mesmo na posição de pais e filhos, condutores ou missionários, somos todos irmãos e irmãs. Se surgir alguém tocado pela fé, cresçam e evoluam junto com essa pessoa”.
Ao ouvir essas palavras, senti um grande alívio no coração.
Aqui também percebi, mais uma vez, que não é necessário “ensinar” os fiéis ou as crianças, mas sim, caminhar junto com eles, crescendo e evoluindo lado a lado.
Recentemente, um amigo me convidou para irmos à casa dele, que tem piscina. Lá, meu segundo filho, de 3 anos, quase se afogou, mas o irmão mais velho, que estava junto, rapidamente o puxou para fora da água. O caçula, ainda tossindo por ter engolido água, disse logo em seguida: “Engoli água. Tinha gosto de água”. Ele se lembrou do que ouvimos na Instrução. Claro que provavelmente ele não entende totalmente o significado, mas pude perceber como as atitudes e palavras do dia a dia vão, pouco a pouco, sendo transmitidas para as crianças.
Então, ao pensar que um dia meus filhos perceberão o significado dessas palavras, me perguntei se não seria assim também com Oyassama. Ela frequentemente utilizava alegorias para transmitir os ensinamentos de uma forma que nós, seres humanos, pudéssemos compreender com facilidade. Oyassama é a nossa mãe, e as palavras e ações dela, que chamamos de vida-modelo são, para nós, como as atitudes diárias dos pais.
Agora, sendo pai responsável pelos filhos, percebo que o que mais me deixa feliz é ver meus filhos convivendo bem, com alegria e harmonia. Quando tive essa sensação, fiquei ainda mais impressionado com a clareza das alegorias utilizadas e com o quanto elas realmente conseguem tocar nossos corações.
Ao refletir sobre a frase ao final da Instrução, que expressa o desejo de contentar e tranquilizar Oyassama, penso em como ela deve se sentir triste ao ver as guerras acontecendo pelo mundo. Assim como não há nada mais doloroso para mães e pais do que ver seus filhos brigando, deve ser grande a tristeza sentida ao observar esses conflitos.
Não posso deixar de orar para que um dia a palavra “guerra” desapareça dos noticiários matinais e que os irmãos e irmãs em todo o mundo possam dar as mãos em harmonia, trazendo tranquilidade ao coração de Oyassama.
Infelizmente, só podemos orar para que o mundo mude, mas neste ano de encerramento dos três anos e mil dias, quero manter sempre um sorriso alegre, aquele sorriso redondo no rosto, e, junto com todos, passar por esse período com coragem, para dar ainda mais alegria a Oyassama.
Muito obrigado pela sua atenção.
*é condutor da Igreja Brasil Takaumi