Mario Ito
Acredito que Oyassama esteja muito contente com a magnífica celebração da cerimônia dos 140 anos de seu ocultamento físico, no dia 26 de janeiro, em Jiba, na Terra Parental da humanidade.
Na mensagem de ano novo, o Shimbashira (primaz mundial) e o primaz do Brasil agradeceram pelo concentrado esforço e dedicação de todos os fiéis durante o período dos três anos, mil dias. Ainda, na reunião de início de ano, o Shimbashira disse que o decenário de Oyassama não deve ser visto como um ponto final, mas como o início de uma nova etapa. Ao encerrarmos o triênio, não se trata de simplesmente retornar ao passado, mas de utilizar todo o esforço e dedicação desse tempo como alicerce para avançarmos em direção a uma maturidade espiritual mais profunda.
Ou seja, as orientações contidas na Instrução 4 ainda permanecem como os balizadores de nossa conduta e esforço visando o próximo decenário. Na Instrução 4, o parágrafo a seguir trata de um tema desafiador, sobre o qual venho refletindo há algum tempo: a transmissão vertical.
“Oyassama começou sozinha este Caminho, e os precursores, tendo a vida-modelo como apoio do espírito, trilharam-no com muito empenho para que tivesse continuidade até nós. Herdando essa fé, de pais para filhos, de filhos para netos, cada passo acumulado se torna a ligação do Caminho por todas as gerações.”
Pesquisando sobre o assunto, sobre transmissão de aprendizados históricos de geração para geração, encontrei algumas teorias e todas têm uma visão central em comum: o ‘natural’ enfraquecimento da transmissão com as gerações. Em uma delas, a teoria dos ciclos geracionais, desenvolvida por William Strauss e Neil Howe, no livro ‘A Quarta Virada’, propõe que a história segue um padrão cíclico de aproximadamente 80 a 100 anos, um período que corresponde à duração média de uma vida humana e abrange quatro gerações distintas. Segundo os autores, o “esquecimento” das lições históricas ocorre porque a memória emocional de grandes crises tende a desaparecer com o tempo. Enquanto as gerações que vivenciaram diretamente esses eventos ainda estão ativas na sociedade, os aprendizados permanecem vivos. No entanto, à medida que essas pessoas se aposentam ou falecem, a experiência vivida se transforma em narrativa histórica, perdendo sua força como alerta prático. Isso abre espaço para a repetição de erros do passado. A razão para esse ciclo de quatro gerações está enraizada na limitação da tradição oral direta. Em cerca de um século, a transmissão de experiências vividas, como avós contando histórias aos netos, se esgota, e com ela, a capacidade de aprender com o passado.
Maurice Halbwachs, autor sobre a ‘Teoria da Memória Coletiva’, fala que a memória é uma construção social que depende de grupos ativos para sobreviver, de modo que, quando esses marcos desaparecem e a experiência afetiva e viva é substituída pela frieza da ‘história’ dos livros, a sociedade perde seu ‘anticorpo’ emocional e se torna vulnerável à repetição cíclica de erros e crises cujas dores foram esquecidas.
Muito interessante, não?
Não sei se todos puderam ouvir a palestra do Shimbashira, primaz mundial, na Grande Cerimônia da primavera, relativa ao decenário de Oyassama. O Shimbashira iniciou a narração com emoção e ternura, como se tivesse vivenciado pessoalmente os momentos marcantes da vida de Oyassama que antecederam o seu ocultamento, em 26 de janeiro de 1887. Realmente, pude sentir as emoções em suas palavras que vitalizou o meu ‘anticorpo’ emocional.
Atualmente, muitos dos fiéis do Brasil já são da quarta ou quinta geração na Tenrikyo e relatam dificuldades em transmitir a doutrina na família. De frma alguma devemos aceitar passivamente o chamado ‘enfraquecimento’ mencionado nas teorias acima, sob o risco de nos tornarmos mais um exemplo dessas próprias previsões.
Lendo e relendo a Instrução 4, começo a entender melhor a real preocupação do Shimbashira e por que iniciou o texto com o trecho das Indicações Divinas: “Se não trilharem o caminho da vida-modelo, não será necessária a vida-modelo. (...) Não há outro caminho a não ser o da vida-modelo.”
O apelo é para que elevemos o nosso espírito ao nível da segunda geração, sentindo profundamente os sacrifícios e a gratidão da primeira, agindo conforme os ensinamentos recebidos, e, por fim, transmitindo os aprendizados e as experiências vividas às gerações futuras. Ou seja, mais do que apenas contar as histórias dos mestres que nos antecederam, é fundamental aproximarmos nossas vidas das deles, tornando-nos, assim, referências vivas para as futuras gerações.
*é diretor da Associação Infantojuvenil e condutor da Casa de Divulgação Toei (Igreja Bauru)