Reflexões sobre o espírito humano e o amparo de Deus-Parens no cotidiano
Vivemos tempos de pressa. Acordamos com notificações, dormimos com pendências, e atravessamos os dias como se cada hora tivesse sido roubada de nós antes mesmo de começar. O mundo ao redor acelera, exige, compara. E, no meio de tudo isso, o coração humano - esse coração que Deus-Parens moldou com tanto amor e paciência desde o início deste mundo - vai se enchendo de uma poeira fina que não dói de imediato, mas vai, aos poucos, obscurecendo a alegria.
A Escritura Divina nos ensina que as poeiras do espírito são a mesquinhez, a cobiça, o ódio, o amor-próprio, o rancor, a raiva, a ambição e o orgulho. Não são males extraordinários, reservados a pessoas malvadas. São poeiras cotidianas, que se depositam no coração de qualquer um que viva voltado apenas para si mesmo. Como está escrito:
“Este caminho é a mesquinhez, a cobiça e o amor-próprio, a ambição e o orgulho. Estas são as poeiras.” (ED III-96)
Reconheço essas poeiras no meu cotidiano. Quando me irrito com o colega que age diferente do que espero. Quando comparo o meu caminho com o do outro e sinto inveja. Quando faço um bem e, no fundo, aguardo reconhecimento. Quando me julgo melhor do que sou, ou me subestimo mais do que é justo. São movimentos internos tão rápidos, tão automáticos, que muitas vezes não os percebemos como poeiras — os vemos apenas como “reações normais”.
Mas Deus-Parens, que vê o íntimo de cada coração como num espelho, não nos condena por isso. Antes, com a paciência de quem criou os seres humanos pelo puro desejo de vê-los felizes, insiste em nos ensinar o caminho de volta para a alegria. No Mikagura-uta, Deus nos convida:
“Esqueçam por completo o espírito cruel e tornem gentil o espírito.” (HS V-6)
“Esqueçam por completo” — que expressão profunda. Não se trata de suprimir, de fingir que o espírito cruel não existe. Trata-se de uma decisão consciente: escolher não alimentar aquilo que nos diminui e diminui os outros. É o que poderíamos chamar, em linguagem de hoje, de uma higiene interior — a prática diária e humilde de olhar para dentro e perguntar: “que espírito estou cultivando agora?”
Vivemos numa era em que o sofrimento alheio chega até nós em tempo real. Guerras, crises, injustiças - tudo em alta definição na palma da mão. É fácil sentir que o mundo está partido, que a humanidade falhou a si mesma. Mas os ensinamentos de Deus-Parens nos oferecem uma perspectiva que transforma radicalmente esse olhar:
“Todas as pessoas do mundo são igualmente irmãos, não há quem seja estranho.” (ED XIII-43)
Não há estranhos. Essa verdade, se verdadeiramente absorvida pelo coração, muda a forma como atravessamos um dia comum. O motorista que avançou o sinal, o vizinho que fez barulho de madrugada, o familiar com quem mantemos uma antiga desavença — todos são nossos irmãos. Filhos do mesmo Parens que nos criou com idêntico amor. O problema não está em eles serem quem são. O problema, muitas vezes, está na poeira que carrego dentro de mim e que não me deixa ver essa verdade.
O caminho que Deus-Parens nos aponta não é o da perfeição imediata, mas o da sinceridade constante. O Ofudesaki nos assegura que, onde houver um coração que genuinamente deseje limpar-se, Deus-Parens estará presente para realizar essa limpeza:
“Se Deus aceitar ao menos a sinceridade do espírito, fará a limpeza de qualquer poeira.” (ED XIII-23)
A sinceridade do espírito. Não a perfeição do espírito. Não a ausência total de poeira. Apenas a sinceridade - o desejo real, ainda que imperfeito, de melhorar, de limpar, de voltar para a verdade. Que alívio imenso há nessa palavra! Ela nos diz que Deus-Parens não aguarda que nos tornemos impecáveis para agir conosco. Aguarda apenas que sejamos honestos - conosco mesmos e com Ele.
Nesse sentido, a limpeza do coração não é um feito heroico reservado a poucos. É uma prática de cada dia, de cada momento. É o instante em que percebo que estou sendo mesquinho e escolho não continuar. É a respiração profunda antes de responder com raiva. É o gesto de ajudar sem esperar retribuição. É o olhar que enxerga no outro não um adversário, mas um irmão que também carrega suas próprias poeiras, também busca sua própria alegria.
Nos Hinos Sagrados, traz uma promessa que ressoa como uma bênção para esses tempos difíceis:
“Por mais que continuem a crer, deverão ser repletos de alegria.” (HS V-5)
“Por mais que continuem” — essa expressão nos diz algo muito importante: não há prazo de validade para a graça de Deus-Parens. Não importa há quantos anos você segue o Caminho, nem em quantas poeiras tropeçou ao longo dele. O que importa é continuar. Continuar crendo, continuar limpando, continuar buscando o espírito gentil que Deus-Parens deseja ver em cada um de nós.
No cotidiano de julho, com o inverno trazendo suas noites mais longas e seu convite natural ao recolhimento, talvez seja um bom momento para esse olhar para dentro. Para fazer a pergunta simples que os ensinamentos sempre nos propõem: que espírito estou usando? Estou vivendo voltado para mim mesmo, ou existe algum espaço, ainda que pequeno, para o outro?
Porque o destino da humanidade, segundo Deus-Parens, não é o sofrimento nem a divisão. É o Yokigurashi - a vida plena de alegria e felicidade. E esse destino começa aqui, neste coração, neste dia, neste momento de sinceridade:
“Se ao menos for feita plenamente a limpeza do íntimo do coração de todos,
Desde então, o mundo inteiro se animará e se tornará naturalmente repleto de alegria.” (ED XIII-24 e 25)
O mundo inteiro repleto de alegria. Não apenas algumas pessoas. Não apenas quem merece. Todos. Essa é a intenção de Deus-Parens - e é também o nosso compromisso como filhos do caminho: cuidar deste coração, limpar esta poeira, estender esta mão. Um dia de cada vez. Um coração de cada vez.
(Joel Jun Iti Kashiwaba)