Yoshimiti Matsusaki
Bom dia.
Gostaria de parabenizar a todos pela realização da cerimônia mensal da Sede Missionária, tendo ao centro o Primaz. Recebi a missão de realizar a palestra da cerimônia e peço alguns minutos da atenção de todos.
Nascer da Igreja
Eu gostaria de falar sobre a nossa conexão, a nossa ligação com a igreja. A partir do momento em que as igrejas são a presença de Jiba nas localidades, a nossa ligação com a igreja não pode ser subestimada.
Na Indicação Divina de 13 de dezembro de 1906, temos:
“Havendo a razão da Sede, existe a razão das igrejas; é o mesmo fio de respiração. Se não estabelecerem este espírito único, o céu não trabalhará.”
Na doutrina, temos:
“A denominação de igreja será permitida quando a dedicação de um yoboku à missão der o seu fruto, reunindo um número considerável de seguidores. É permitida pela sinceridade e a firmeza com que se dedica à causa da salvação, aumentando intensamente o brilho do trabalho missionário.”
Para refletirmos sobre essa ligação, é muito importante compreendermos como nasce uma igreja. Na grande maioria das vezes, a igreja começa a partir de uma pessoa que ingressou no Caminho. Ela passa a divulgar os ensinamentos, reúne em sua casa pessoas que se interessam pelo caminho ou que foram salvas por ele. Com o tempo, essa residência torna-se uma casa de divulgação e, com a dedicação de muitas pessoas, a casa daquela família transforma-se em uma igreja.
É por isso que as construções das igrejas da Tenrikyo, historicamente, nascem de forma mais modesta e, com o decorrer dos anos, vão sendo reformadas até se tornarem templos bastante vistosos. Mas é importante estar atento ao fato de que a igreja que nós frequentamos está em um destes diferentes estágios. Provavelmente, ela foi uma casa que se transformou em uma igreja.
Imaginem oferendar seu maior patrimônio, ceder seu espaço privado e transformar a sua própria casa em um espaço religioso? Não é uma decisão simples.
Relações Pessoais
É nesse momento que nos defrontamos com a complexidade das relações pessoais dentro de uma igreja. E não é diferente com as famílias. Conforme elas crescem, um casal passa a ter filhos, depois netos, cunhados e outros parentes. Aquele clã aumenta, e as relações tornam-se mais diversificadas e complexas. Até mesmo em um pequeno negócio, com poucas pessoas, como um pequeno comércio que pode crescer e se tornar um grande empreendimento, isso se reflete em relações mais diversas e complexas.
A igreja possui aspectos semelhantes. O que inicialmente era constituído por uma única família, começa a ser multifamiliar. Então, diferentes pessoas predestinadas começam a frequentar aquele mesmo espaço, que até então era o espaço de uma casa. Foi assim também no início da Tenrikyo.
Temos na Escritura Divina:
Reuni-os um após outro, usei-os para criar os seres humanos e concedi-lhes nomes divinos. (ED VI-51)
No mundo, por não conhecerem esta verdade, todos estão somente a desanimar-se. (ED XIV-26)
Doravante, começarei a fazer o mundo inteiro repleto de alegria, seja até onde for. (ED X-103)
Ao longo do tempo, surgem ciclos: novas gerações, o ingresso de novos fiéis, amigos e simpatizantes, que por sua vez também vão crescendo. Nesses ciclos, temos altos e baixos, bem como oportunidades para o Shonenkai, para o Joshi, Gaku, Seinenkai e Fujinkai.
Espaço de Dedicação ou de Conveniência
Na doutrina, temos:
“A igreja é onde se transmitem os ensinamentos e se ministra a prática da dedicação única à salvação. Para elevar realmente o espírito da igreja, é muito importante que as pessoas congregadas a ela vivam identificadas com a verdade da Jiba e fraternalmente unidas [...], numa verdadeira unidade de espíritos e em cooperação mútua”.
Muitas vezes, o que as pessoas falam? “Puxa, eu não vou à minha igreja porque lá tem poucos jovens.” Ou então: “Eu vou à outra igreja porque lá tem mais crianças, e aqui não tem. Não dá para fazer isso ou aquilo”.
Esses diferentes ciclos fazem com que cada igreja tenha maior ou menor atratividade aos olhos de algumas pessoas, em determinados momentos. Em certos períodos, há muitas atividades; em outros, poucas. Algumas igrejas contam com mais recursos; outras enfrentam limitações. Essa realidade varia de uma igreja para outra.
É comum que algumas pessoas, por conveniência, digam: “Eu prefiro frequentar esta igreja porque ela fica mais perto de casa”; “Eu prefiro frequentar aquela igreja porque tem menos isso ou mais aquilo”; “Tenho mais amizade com aquele grupo de pessoas”; ou o mais comum: “Não gosto do condutor, ou de outra pessoa”. Nesse sentido, é importante refletirmos que a igreja não é uma loja de conveniência, aonde você vai pela proximidade, tampouco é um clube recreativo.
Na doutrina, temos:
“Desta maneira, de acordo com o ensinamento “do nó saem brotos”, os molestamentos físicos e as complicações espirituais são nós que se tornam alimentos do espírito e dão impulso à fé”.
A igreja é um espaço para a nossa evolução. Nessa ótica de evolução, muitas vezes vamos a uma igreja e o ambiente não é tão acolhedor como gostaríamos. Não é tão gostoso, não tem o número de pessoas e não é tão animado como esperávamos. Há poucas oportunidades de participar, e existem cobranças maiores nisto ou naquilo.
É importante refletirmos que, assim como em uma escola, se já soubéssemos tudo aquilo que está sendo ensinado e tudo fosse muito simples, não haveria aprendizado nem evolução. Quando vamos à escola, deparamo-nos com maiores dificuldades, pois buscamos um novo nível de conhecimento. São as dificuldades e os temas mais complexos que nos permitem crescer e evoluir.
Ou, então, se fôssemos a uma academia para fazer exercícios, não faria sentido escolher uma onde os pesos e equipamentos fossem tão leves a ponto de não exigir nenhum esforço. Essa situação não contribuiria para a melhoria da nossa saúde nem da nossa estrutura física.
Nesse sentido, quando vamos a uma igreja, essas dificuldades e barreiras que encontramos são oportunidades de evolução.
Então, quando frequentamos uma igreja e pensamos: “Ah, poxa vida, tem muitas crianças, mas não tem ninguém que organize um encontro de crianças, um Otomarikai”, essa é a nossa oportunidade de evolução, de nos dedicarmos para poder prover isso. Ou, então, se é uma igreja que tem poucos jovens, pode ser uma oportunidade de atrair mais jovens, realizar o Niogake e a divulgação, para que eles se aproximem. Nesse sentido, a ausência de algo que eu percebo ou desejo que aquela igreja tivesse é, na verdade, uma oportunidade para eu me dedicar e trabalhar na construção daquilo — uma dedicação e construção incessante (Kirinashi Fushin).
Hoje, somos condicionados a olhar pela ótica da conveniência e da passividade, sempre pensando no que gostaríamos e no desejo de ver aquilo pronto. Mas imaginem o merecimento daquela pessoa que ajudou a desenvolver e construir algo. Esse merecimento é muito maior do que o da pessoa que simplesmente usufrui de tudo pronto.
Gostaria que refletíssemos sobre isso: quando formos à igreja, precisamos ver quais são os desafios, como podemos ajudar a criar, melhorar ou resgatar, conversar com as pessoas e, principalmente, com o condutor. Muitas vezes, as ideias são rejeitadas, e existem pessoas de difícil trato, falta de recursos ou excesso de atividades. Essas situações são oportunidades para a nossa evolução e para o nosso amadurecimento.
Predestinações
É muito importante pensarmos sobre as predestinações, porque, quando estamos conectados a uma igreja, essa ligação é muitas vezes geracional. Por gerações, as pessoas sabem o que se passou na sua família e como ela ingressou no caminho. Quando a nossa relação é apenas por conveniência e passamos a frequentar diversos locais, essa conexão se perde e se esvazia, tornando raso o entendimento do próprio caminho e da jornada.
Na Escritura Divina, temos:
O pensamento de cada um não está correto. O espírito de Deus é totalmente diferente. (ED I-73)
Protejo-os unindo as predestinações das vidas anteriores. Isto se estabelecerá firme para todo o sempre.
(ED I-74)
Não sou contra frequentar outros locais. Muito pelo contrário, acredito que devemos ajudar o máximo que pudermos, aprender com os melhores mestres, com os bons ambientes e com as boas práticas. Devemos ver o que é possível fazer em nossa igreja, valorizar a relação de Yonomotokai e de amigos da fé, e manter uma relação de apoio mútuo nas diversas igrejas, casas de divulgação e atividades.
Contudo, é fundamental que nos dediquemos à igreja à qual somos originalmente vinculados, pois é importante compreender a nossa predestinação.
Certa vez, um fiel que recém havia recebido o Sazuke sempre pedia para que eu o acompanhasse em suas primeiras experiências, pois não se sentia seguro. Na primeira vez, fomos visitar um senhor que havia caído da garagem, batido a cabeça e estava com um cisto na região. Na segunda vez, foi uma pessoa que caiu em casa e também bateu a cabeça. Na terceira vez, novamente, outro indivíduo apresentou uma situação relacionada à cabeça. Então, perguntei ao fiel se haveria alguma mensagem nesses fatos recorrentes. Pensativo, aquele homem de 1,90 m ficou com os olhos marejados e se lembrou de sua infância: ele havia caído de uma árvore e batido a cabeça. Não havia dia em que não passasse mal, e o médico sugerira uma cirurgia para aliviar a pressão craniana. Sua mãe, muito religiosa, não aceitou a cirurgia e passou a rezar todos os dias por ele, até que as dores diminuíram e desapareceram. Ele já nem se lembrava daquele episódio distante.
Ou seja, todas as pessoas que encontramos nessa jornada são reflexos da nossa predestinação, principalmente nossa família e os membros de nossa igreja.
Grandes Distâncias
É claro que, muitas vezes, moramos numa cidade muito distante da nossa igreja. Então, como podemos nos dedicar? Não tenho condições de ir com a frequência que gostaria se, por exemplo, moro em São Paulo e a minha igreja fica em Salvador.
Sobre isso, tivemos as seguintes palavras na palestra do Diretor-Geral de Assuntos Administrativos, Zensuke Nakata, em agosto de 2020:
“A grande missão da igreja é a salvação e a condução no dia a dia. Nesse sentido, mesmo que a sua igreja fique longe, existem várias igrejas em cada região [...]. Mesmo que não seja a igreja à qual esteja ligado, você pode conduzir-se diariamente às igrejas que recebem a razão de Jiba em qualquer lugar [...]”.
Pensemos na seguinte situação: nossos pais moram em Salvador e passamos a frequentar a casa de pessoas que cuidam de nós como se fôssemos seus filhos. Isso não rompe a relação filial que temos com nossos pais biológicos. Não significa que não haja carinho, cuidado e até mesmo uma gratidão profunda por essa nova família. Porém, por mais que haja essa relação de acolhimento, a conexão filial original nunca é substituída, porque existe uma predestinação em todos os encontros. Essa é a razão.
Nossos desejos são muitas vezes imaturos, como os de crianças inocentes. Tenho uma irmã que teve quatro filhos e outra que demorou para ter o seu primeiro e único. Esta última era sempre superprestativa com os sobrinhos. Antes de seu filho nascer, quando os meus sobrinhos brigavam, a mãe deles dizia: “Se você brigar com seu irmãozinho, vou dá-lo para sua tia”. O mais velho logo chorava e respondia: “Por que ele e não eu?”.
É natural que nós, como pais, quando nossos filhos viajam ou moram longe, queiramos que eles sejam acolhidos por pessoas que conhecemos e respeitamos, que possam cuidar deles e orientá-los como nós faríamos. Na vida, não existe uma relação de posse; tudo é um empréstimo, inclusive os relacionamentos. Nessa razão de cuidado, gostaríamos que nossos filhos ficassem aos cuidados de pessoas evoluídas, que se preocupem genuinamente com eles.
Pense numa criança que se perdeu ou se distanciou dos pais. Da mesma forma, uma pessoa pode se perder, se desconectar das relações parentais e se distanciar do Caminho. Se, num dado momento, descobrimos que ela tem uma conexão ancestral com alguma igreja e você se dedicou para que ela amadurecesse, o processo será como o de uma criança que reencontra os pais. Claro que existe a dor da perda daquela companhia a quem você se dedicou, mas o que há de mais valioso é que aquela pessoa encontrou realmente o seu caminho da fé, retornando às suas verdadeiras raízes.
Salvação Mútua
Na Escritura Divina, temos:
Se têm realmente o espírito de dedicação única à salvação, embora nada digam, aceito-o firme.
(ED III-38)
Reflitam do íntimo do coração para entenderem. Salvando os outros, estará salvando a si mesmo.
(ED III-47)
É a partir dessa relação de cuidado e carinho que devemos nos conectar. Em última instância, toda e qualquer comunidade — seja uma casa de divulgação ou uma igreja — é uma reunião de yobokus. E nós, enquanto yobokus, estamos nos dedicando para a concretização do mundo de Yokigurashi. A dedicação à salvação do outro nos eleva e nos aproxima de Deus-Parens e de Oyassama, sendo esta a base da nossa própria salvação.
No passado, eu ministrava o Sazuke para uma senhora chamada Nanci, que sofria de atrofia de múltiplos sistemas. Aos poucos, ela perdia os movimentos e a autonomia. Era muito triste ver seu corpo piorar dia após dia. Seu filho, muito jovem, não tinha o apoio do pai e via a mãe se debilitar lentamente. Lembro-me de que meu desejo era que ela se recuperasse e conseguisse fazer a reverência na igreja.
Nesse período, uma senhora tocou a campainha da igreja e disse que sempre passava em frente, mas que naquele dia sentiu vontade de conhecer o local. Para minha surpresa, ela também se chamava Nanci. Falei sobre o ensinamento e comentei como estava surpreso, pois a paciente para quem eu transmitia o Osazuke tinha o mesmo nome e eu desejava muito que ela pudesse vir à igreja. Aquela senhora começou a chorar, contando que seus pais haviam retornado recentemente devido a essa mesma doença. Conversamos mais um instante, ela se retirou e nunca mais a vi. Um tempo depois, a primeira Nanci retornou. Era como se Deus tivesse atendido ao meu pedido de uma forma diferente.
Acredito que a dedicação à salvação é a forma de amadurecermos e atingirmos o Yokigurashi. O conceito de Yokigurashi possui algumas interpretações. Alguns mestres o definem como um mundo onde não haverá problemas. Mas existe outra interpretação: a de que será um mundo onde ainda teremos adversidades, mas o nosso nível de evolução, maturidade e fé fará com que elas sejam sempre superadas e compreendidas segundo a razão de Deus-Parens.
Muito obrigado pela atenção.
*é diretor da Sede Missionária e condutor da Igreja Taimo