Eduardo Y Otake
Completei setenta anos de idade. Nasci e cresci em uma família profundamente ativa na fé da Tenrikyo. Hoje, contemplo a continuidade dessa jornada por meio dos meus sete netos; dentre os cinco que residem na igreja, três lá nasceram. Quando comparo a infância deles com a minha, percebo as mudanças do tempo. Eles não possuem mais as ruas amplas da minha época para brincar, mas desfrutam do vasto espaço da igreja, onde participam com entusiasmo de todas as atividades infantojuvenis. Meus netos representam a quinta geração nesta caminhada de fé. Apenas as duas gerações que nos separam foram suficientes para que eles passassem a viver em um mundo completamente diferente daquele em que cresci, ou mesmo daquele no qual seus pais se formaram.
O mundo contemporâneo é globalizado, hiperconectado e imediatista. As crianças recebem tantos estímulos desde o nascimento que, às vezes, sinto-me medíocre diante de suas capacidades na mesma idade. À medida que crescem, esses jovens desenvolvem uma percepção muito nova do mundo e das pessoas, questionando com naturalidade desde as coisas mais simples até as mais complexas. Determinar se esse amadurecimento é prematuro é um desafio, mas trata-se de uma realidade certamente irreversível. Independentemente de nossa posição ou função na família, na sociedade ou na igreja, precisamos nos atentar a essa dinâmica e nos ajustar a cada um deles.
No âmbito religioso, compreendo que não se trata de modificar a doutrina de Oyassama, que é uma verdade imutável, tampouco de adaptá-la ao sabor do tempo ou das conveniências humanas.
Sabemos que a experiência de vida de um missionário nem sempre garante um diálogo fácil com as novas gerações. Talvez a maior sabedoria acumulada pelos anos seja a de utilizar bem as providências da audição e o ensinamento de “abrir os ouvidos”, exercendo a escuta ativa e empática. A globalização tende a conduzir as pessoas a uma busca autônoma por sabedoria e verdade. Assim, ao abrirmos o nosso coração ao outro, criamos um canal de comunicação que jamais deve se pautar por diálogos impositivos ou autoritários.
A igreja, conforme nos é ensinado, é o local a partir do qual devemos semear as sementes da youki gurashi, isto é, da vida plena de alegria e felicidade. E, como em qualquer cultivo, sua comunidade deve se dedicar primeiramente ao acolhimento sincero, para depois realizar o tratamento e a fertilização da alma. É por meio desse acolhimento que oferecemos o abrigo espiritual necessário para trazê-los de “regresso à casa paterna” e deixá-los agir conforme seus desejos.
Culturalmente, há um imenso campo de trabalho a ser preparado. Teorias abstratas não superam a coerência das atitudes diárias. Na prática, todas as partes devem demonstrar consonância entre o desejo de salvar o próximo e as ações que nos tornam merecedores de tal graça. Somente vivendo o que pregamos podemos preservar a verdadeira “razão de igreja”.
O mundo, como corpo vivo de Deus-Parens, demonstra a excelência da criação. A espiritualidade real reside em encontrar esse propósito e participar ativamente da construção de um mundo feliz, sem ambiguidades. Desejo apreciar esta vivência.
(Eduardo Yoshinobu Otake)