Marcelo Seiji Ogassawara
No início deste ano, assumi a missão como 2º condutor da Igreja Tenrikyo Horizonte, em Cascavel (PR). Ao olhar para o altar e contemplar essa responsabilidade, não vejo apenas o presente, mas sinto o peso e o amor de uma história que começou em 1917, em Hokkaido, no Japão, com meus bisavôs paternos. A família Ogassawara está hoje em sua 4ª geração de dedicação neste Caminho, uma jornada iniciada antes mesmo da imigração para o Brasil. Hoje, nossa descendência já alcança a 6ª geração, somando mais de 250 pessoas.
Contudo, ao olharmos para esse número expressivo, deparamo-nos com uma realidade que toca o coração de muitos condutores e fiéis: por diversos motivos da vida moderna, muitos desses descendentes encontram-se afastados das atividades da Igreja e da dedicação aos ensinamentos.
Essa situação não é exclusiva da nossa família. Em muitas casas de divulgação e igrejas pelo Brasil e pelo Japão, a base da nossa fé sempre foi o esforço, o apoio mútuo e a dedicação familiar. Quando as novas gerações se afastam, não são apenas os bancos da igreja que se esvaziam; os próprios laços de união familiar enfraquecem. O individualismo ganha espaço, gerando desarmonia e distanciando as pessoas da verdadeira intenção de Deus-Parens para a humanidade: o viver a Vida Plena de Alegria e Felicidade (Yokigurashi).
Diante disso, surge o questionamento que inquieta nossos corações: como reconquistar o interesse dos jovens e trazer de volta os familiares afastados?
De acordo com o meu entendimento, no caso de famílias que estão há várias gerações seguindo os ensinamentos, podemos ilustrar a situação com a imagem de uma grande árvore. Ela é sustentada por grandes e profundas raízes, escondidas debaixo da terra. Os pais e os antepassados são essas raízes; os filhos são os galhos e as folhas. Se as raízes pararem de enviar seiva, os galhos secam e caem. Mas, se continuarem firmes, silenciosas e nutridas de gratidão a Deus, a seiva subirá e, no tempo certo, os galhos voltarão a dar folhas verdes e frutos.
Portanto, o nosso papel não é confrontar ou cobrar os “galhos” afastados, mas sim continuar nutrindo a raiz através de nossas orações (otsutome), da atitude de gratidão diária (hinokishin) e do acúmulo de virtudes (toku).
É através dessa seiva que compreendemos a força e o valor de sermos famílias unidas por várias gerações dentro deste ensinamento. Precisamos despertar em nossos corações, e no coração dos que se afastaram, o verdadeiro “Elo de Gratidão”. Voltar a olhar para o Caminho, aproximar-se e dedicar-se, mesmo que de forma simples ou gradual, não se trata de cumprir regras institucionais. É, fundamentalmente, um ato de amor, afeto e respeito pelo legado daqueles que vieram antes de nós. É honrar o sangue, o suor e as lágrimas de quem nos deu uma base na vida.
Para os nossos antepassados, a Tenrikyo não era uma obrigação, era a vida deles. Eles enfrentaram dificuldades severas sorrindo porque confiavam em Deus. Quando simplesmente esquecemos esse Caminho, é como se disséssemos que o sacrifício e a maior paixão da vida deles não tiveram valor. Voltar a olhar para a fé é a maior forma de dizer “obrigado” a eles.
Na sociedade atual, é comum o pensamento humano de se preocupar muito em deixar riquezas materiais para os filhos, mas o dinheiro pode sumir num sopro de vento. A única herança verdadeira, que ladrão nenhum rouba e que o tempo não destrói, é a Virtude da Fé Sincera. Quem deixa sementes de virtudes plantadas no caminho da fé para os filhos garante a colheita da segurança eterna. Assim, precisamos despertar a consciência sobre a ilusão de priorizarmos as conquistas do mundo material em detrimento da nossa evolução espiritual.
Retornar ao caminho dos antepassados é um ato de profunda gratidão a Deus-Parens, que nos empresta o corpo e nos sustenta a cada fôlego. Para despertar os jovens e os que se afastaram, o primeiro passo deve partir de nós, que hoje sustentamos a fé. Precisamos ser raízes fortes, que não reclamam da seca, mas que buscam a água viva dos ensinamentos de Oyassama. Que possamos, através do nosso exemplo de alegria e dedicação sincera, enviar a seiva do amor e da virtude para que toda a nossa árvore familiar volte a florescer e a frutificar. Com o resgate dos “galhos” afastados e a atração de novos seguidores para o caminho, juntos vamos promover o viver da plena felicidade e alegria, que é o propósito de todos os seres humanos.
•é condutor da Igreja Horizonte e diretor da Associação Infantojuvenil