Rina Takemura Moniva
Na Tenrikyo, a dedicação filial nos lembra da importância de agradecer pelo amor que recebemos de nossos pais e de transformar essa gratidão em cuidado.
Não basta dizer “sou grato”, esse sentimento aparece no dia a dia, quando escutamos, ajudamos e damos valor à história de quem nos criou.
Toda família tem sua história, com momentos bons, dificuldades e limitações. Agradecer aos pais não significa achar que eles são perfeitos ou esquecer o que nos machucou. Dá para ser grato e, ao mesmo tempo, manter os limites de que precisamos. Cuidar faz mais sentido quando vem do coração e não só da obrigação.
A Tenrikyo ensina que o corpo é emprestado por Deus-Parens. Isso nos lembra que não vamos ficar aqui para sempre: um dia devolveremos esse corpo. Pensar nisso pode nos ajudar a dar mais valor à vida e ao tempo que temos juntos.
Não sabemos quando esse momento vai chegar, para nós ou para os nossos pais. Mesmo assim, às vezes deixamos uma visita, uma conversa ou um agradecimento para depois, como se o tempo estivesse sempre à nossa disposição.
Algumas pessoas vivem pouco; outras vivem muitas décadas. Não sabemos quanto tempo teremos juntos. Por isso, não precisamos esperar uma data especial para demonstrar carinho.
A dedicação filial pode começar com coisas simples: perguntar como os nossos pais estão, ouvir uma história sem pressa, ajudar no que precisam ou agradecer por um cuidado que antes parecia tão comum. Nem sempre dá para estar perto, mas podemos encontrar outras maneiras de estar presentes. O que realmente conta é a sinceridade com que fazemos o que está ao nosso alcance.
Cuidar também é respeitar a vontade dos pais. Ajudar não é decidir tudo por eles. É perguntar do que precisam, ouvir o que desejam e respeitar suas escolhas. Carinho e respeito à liberdade e à dignidade precisam andar juntos.
Esse cuidado entre gerações ajuda a passar adiante o que recebemos. Os nossos pais podem dividir histórias, experiências e valores, sem esperar que os jovens façam tudo do mesmo jeito. E os nossos filhos podem oferecer companhia, apoio e novas ideias. Todo mundo tem algo a ensinar e algo a aprender.
Levar esse legado adiante não é repetir tudo sem pensar. Podemos guardar o carinho e os bons ensinamentos e, ao mesmo tempo, procurar não repetir atitudes que fizeram alguém sofrer.
Para quem tem pais que já retornaram, a gratidão pode ganhar outro jeito de existir: nas lembranças e nas escolhas do dia a dia. Uma história, um ensinamento ou algo que aprendemos com eles pode dar vida a esse sentimento. Nossa história de convivência não acaba no retornamento, continua no jeito como tratamos as pessoas e nas escolhas que fazemos.
Também podemos mostrar essa gratidão cuidando de outras pessoas. Ouvir alguém com paciência, apoiar um familiar ou ajudar quem precisa são formas de valorizar o legado dos nossos pais. Esses gestos podem levar um pouco do carinho e do amor que recebemos deles. Assim, a saudade também pode se transformar em cuidado no presente.
A Tenrikyo ensina que todos somos irmãos, filhos de Deus-Parens, e que a ajuda mútua está ligada a viver a vida plena de alegria e felicidade. Isso nos convida a cuidar também de quem está fora da nossa família: crianças, jovens e idosos. Com cada pessoa, podemos compartilhar o que vivemos e aprender algo novo.
Então, em vez de ficar pensando “eu deveria ter feito mais”, podemos perguntar: “que cuidado posso oferecer hoje?”. Não dá para mudar o passado, mas dá para viver cada dia com o amor e a sinceridade que estão ao nosso alcance.
*é esposa do condutor da Casa de Divulgação Jardim Nova Europa Fukyosho (Igreja Campinas)